quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

3 Horas: mais ou menos o tempo que sonhamos em cada noite. Crítica: Império dos Sonhos.


Por Nilton Rodrigues


Como tem gente que se acostuma com as coisas. Tem gente que se acostuma com relacionamentos, empregos, tarefas diárias, e por incrível que pareça, nas artes também o costume é um veneno. Ninguém melhor que David Lynch para dar um tabefe na cara nos viciados em narrativa retilínea e certinha. O mais novo quebra-cabeça do diretor é “Império dos Sonhos” (Inland Empire). 3 Horas, praticamente o mesmo tempo que especialistas e charlatões dizem que sonhamos em cada noite, é a duração do filme. Martírio para alguns. orgasmos cinematográficos para outros. Para começar, não vá ao cinema esperando ver um filme. Sim, exatamente isso meus queridos Zoneiros, assistir a um filme de Lynch é muito mais que sentar numa poltrona de cinema com chiclete grudado e fazer barulho comendo aquela pipoca fedendo a manteiga, é uma experiência sensorial e alucinógena, é como vislumbrar um quadro de Salvador Dali em frames animados. Não se encaixa em qualquer outra análise cinematográfica. É como cheirar a meia da sua vó vendo o topa tudo por dinheiro. Psicodelia pura!
A História gira em torno da(s) personalidade(s) de Nikki, magistralmente interpretada por Laura Dern (linda como sempre), uma atriz que na profusão de loucuras de sua cabeça, nunca se sabe se Nikki é Nikki, ou sua personagem sendo interpretada por ela mesma (eitcha!), sim, não espere explicação, vá ao cinema e relaxe. Se depois dos 40 minutos iniciais você não entender nada, não se preocupe, você não é o único. Entregue-se ao espetáculo de uma mente docemente doentia e poeticamente bizarra, como os mais indecifráveis sonhos. Arrebentando a linha do racional e desafiando os limites da razão em momentos memoráveis, como os humanos com cabeças de coelho. Fãs vão se deliciar, as assinaturas Lynchianas estão todas lá: o fascínio pelo vermelho, o erotismo, a trilha sonora “cabaré-assustadora”, a narrativa aparentemente fora de tempo e espaço (“se hoje fosse amanhã”) e principalmente a critica ao hedonismo e superficialidade do glamouroso mundo do cinema hollywoodiano. Na premier do filme em um famoso festival de cinema, um repórter perguntou seriamente se David estava se sentindo mentalmente bem, Lynch, respondeu ironicamente que nunca se sentiu tão bem, e para o nosso bem, esperamos que ele continue a zombar do cinema “certinho” e nos entregar obras de arte como “Império dos Sonhos”. Um filme que nunca irá figurar como um estouro de bilheteria e dificilmente será assunto nas rodas de conversa dos amigos “descolados”, mas para os poucos afortunados que desejam conhecer esta outra forma de encarar cinema, sairão recompostos, como depois de uma bela noite de sono. Com certeza um dos melhores filmes de 2007. Bons sonhos!
Nota: 9

Me fui!
Ah, a equipe Zona Fantasma deseja a todos um 2008 cheio de cerveja e festas boca-livre. Feliz Páscoa! (ops!).

3 comentários:

Gabriel disse...

Pois é, como dizem por aí...

"A vida muda, a cada minuto!"
(Autor desconhecido)

"Tenho muitos talentos, e não vou desperdiçar nenhum."
(Elisa Paiva)

"Me queiras como eu sou, que um dia serei como tu queres!"
(Autor desconhecido)

"Existe um mundo melhor... Mas é caríssimo!"
(Provérbio Kaptochunga)

Carolina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carolina disse...

"É como cheirar a meia da sua vó vendo o topa tudo por dinheiro. Psicodelia pura!"

disse tudo..ehehehehe

Adoro Lynch, to louca pra ver esse filme!